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É assim que o empresário Mitsuo Kohigashi define sua trajetória à frente de diversos empreendimentos, das lojas de móveis aos aparelhos para academias. Uma ginástica que ele sempre executou com prazer.

"Nunca sofri. Sempre foi divertido." Assim Mitsuo Kohigashi define sua trajetória desde que chegou ao Brasil. Mas a frase pode soar meio estranha ao se conhecer mais de perto a trajetória deste imigrante japonês que fundou a rede de lojas Work Móveis.

Quando desembarcou sozinho no Porto de Santos, em agosto de 1958, aos 21 anos, ele não tinha muita certeza sobre o rumo que daria à sua vida. Aproveitando a onda de imigração da época, várias possibilidades surgiam no horizonte. Trabalhar com a terra, na indústria, no comércio ou, até mesmo, voltar para o Japão se nada desse certo.

A vida no mato, porém, nunca o agradou e trabalhar como empregado não servia, pensou. Já o comércio, acreditava Mitsuo, nem sempre é bom. Uma quarta alternativa seria estudar para ser professor, mas isso também não o atraiu. No entanto, na prática, ele fez de tudo isso um pouco, exceto pela vida acadêmica. "Eu pensava qual ramo seria bom. Pesquisei até ferro usado, mas não dava certo. Pensei em papel e até roupa usada. Experimentei de tudo, para viver. No Japão dava certo, mas aqui, não".

Candango – Os anos seguintes também foram de experimentações. Ele conta que em Brasília, para onde viajou a procura de trabalho, antes da inauguração da capital federal, passou seis meses plantando grama nos jardins do Palácio da Alvorada, contratado como auxiliar de jardineiro. Quando o seu chefe foi embora, Mitsuo montou uma fábrica de bolo para vender aos trabalhadores da obra.

A produção, em forno caseiro, era moldada por formas improvisadas em latas da Manteiga Aviação. A empreitada foi um sucesso. Ele conta que chegou a ter dez funcionários. "Em 1960, com a inauguração de Brasília, eu vi chegar muitas pessoas de gravata, paletó, e o nordestino, que construiu a cidade, eu vi ir embora. Pensei: minha época acabou."

Ousadia – Mitsuo deixou a fábrica para um funcionário e, disposto a migrar clandestinamente para os Estados Unidos,  tentou viabilizar o projeto a partir de Belém, no Pará. Mas não deu certo. "Fiquei três meses por lá, mas não aguentei o calor e fui para Porto Alegre", recorda.

No sul do Brasil, depois de dois meses trabalhando em uma fábrica de balas, o imigrante japonês alugou uma casa e montou um negócio do ramo. "Eu saia com uma caminhonete e vendia no interior. Fiquei dois anos lá", recorda. A dinâmica do negócio lhe mostrou, no entanto, que a cidade ficou muito pequena para ele. "Eu percebi que precisava vir para São Paulo". Mais uma vez, deixou a fábrica para um funcionário.

De novo na estrada – A estratégia na capital paulista foi semelhante. Ele foi trabalhar em uma tinturaria de Santo Amaro, "para viver" e aprender o serviço. Antes que abrisse seu próprio negócio no ramo, no entanto, um acidente o deixou dois meses internado no Hospital das Clínicas, para se recuperar de uma fratura na perna. "Um dia eles disseram que eu tinha que ir embora e me deixaram em uma pequena pensão na rua Galvão Bueno, no bairro da Liberdade."

Sozinho no Brasil, o jovem imigrante se lembrou do comentário dos companheiros de quarto, no hospital, de que a cidade de Osasco estava crescendo. Sua ideia era abrir uma tinturaria por lá, porque o serviço parecia fácil. Ele apanhou um trem e foi pesquisar o lugar. A tinturaria nasceu improvisada na casa abandonada que ele decidiu ocupar. "Eu puxava água do poço, lavava a roupa à noite, pisava nela pra lavar", conta em tom brincalhão.

Reivenção – A tinturaria chegou a ter sete funcionários, mas o comentário de uma cliente pôs fim ao futuro do empresário como tintureiro. "Eu fui entregar a roupa e ela disse que não precisava voltar mais. Que eu não passava direito e o preço era igual ao da outra tinturaria. Eu pensei: tenho que achar algum ramo que eles não entendam."

O comerciante experimentou a nova ideia com uma placa, na própria tinturaria, informando que vendia móveis usados. A procura foi grande, inclusive por interessados em mobília para escritório. "Aí é que muda a minha vida", define Mitsuo.

A virada – Na fase inicial do negócio, ele fez uma grande compra de móveis do Banco Bradesco, se beneficiou de doações e passou a ser procurado pela clientela e também por fornecedores de móveis novos. Mitsuo observou que só havia três lojas do ramo em São Paulo, todas no comércio dos usados.

Para ocupar espaço, em 1970 ele se instalou em um ponto de 50 metros quadrados no bairro da Lapa. Depois de um ano, concentrou-se nos móveis novos para escritório e ao longo dos anos em que esteve à frente do negócio, em parceria com a esposa Kiyoko Kohigashi, abriu cerca de 40 lojas – algumas foram fechadas e dezenas delas repassadas aos funcionários. Ele calcula que entre essas, cerca de 15 ainda estão em operação.

Atualmente, a rede é administrada pelos filhos Roberto Eiji e Jorge Masayuki Kohigashi. Sob o comando da família há 11 unidades. Roberto Kohigashi, responsável operacional pela rede, explica que no segundo semestre inciará a venda de franquias da Work Móveis.

Novo negócio – O empresário precisou se ausentar do negócio há 12 anos para colocar uma ponte de safena. Mas não se fez de rogado. "Eu tinha que fazer esteira e comprei dois equipamentos. Um eu vendi", conta em tom brincalhão. Foi o suficiente para que se decidisse a montar um novo negócio, a Work Fitness, mais uma das suas muitas experiências como comerciante ao longo de 54 anos de Brasil e 74 de idade. 

Lições – O "espírito de comerciante" cultivado pelo imigrante Mitsuo foi, na sua opinião, o segredo para se diferenciar da concorrência dos grandes magazines. "O comerciante tem que procurar o espaço que eles não conseguem tomar. Eles não conseguirão abastecer todo o povo. Não basta só facilitar pagamento. O preço é importante, mas também é preciso qualidade, atendimento, manutenção. Tem que procurar o que está faltando." E mais: tem que ter um sonho, escrever no papel, pendurar na parede e sempre olhar para ele.

Na concepção de vida de Mitsuo, não há, na sua trajetória, um momento que possa ser mencionado como o de maior dificuldade. Ele deixa claro que prefere a versão vitoriosa, de quem soube se beneficiar da dificuldade.

Para seus filhos e comandados ele também inclui outros ensinamentos. "Esteja sempre bem apresentável. Seja confiante", diz um dos pioneiros no comércio de móveis para escritório da capital paulista.

Fonte: Diário do Comércio - Fátima Lourenço - 17/4/2011 - 19h24

 
 
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